Tudo Mudou Depois Que Você Chegou

Eu tinha planos para o futuro da minha filha. Então o autismo chegou e tudo precisou mudar. Como reconstruir a vida quando nada acontece como imaginávamos?

6/2/20263 min read

worm's-eye view photography of concrete building
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Tudo Mudou Depois Que Você Chegou

Quando Sophia chegou à nossa vida, tudo mudou.

Nossos planos, minha profissão, minha formação acadêmica, a rotina da casa, a renda da família. Tudo precisou se adaptar a uma nova realidade que chegou sem aviso prévio, sem preparo e sem manual de instruções.

De repente, estávamos vivendo a realidade do autismo.

E passamos a descobrir, dia após dia, como atravessar essa jornada de forma mais consciente e menos traumática para toda a família.

Não foi fácil.

Não foi tranquilo.

Não foi leve.

Pelo contrário.

No começo, parecia um terremoto. Tudo o que conhecíamos foi abalado. E então começamos a juntar os pedaços, pouco a pouco, aprendendo a colocar cada coisa em seu devido lugar.

Estudando.

Pesquisando.

Tentando.

Errando.

Recomeçando.

Mas, principalmente, aprendendo a observar.

Foi prestando atenção aos pequenos sinais que comecei a entender melhor minha filha e a ajudá-la a se comunicar.

Hoje, Sophia fala algumas palavras, mas ainda não consegue expressar com clareza tudo o que sente. Ela não consegue me dizer quando está com dor, quando está desconfortável, quando sente frio, calor ou quando algo a incomoda.

Muitas vezes ela também não consegue compreender os próprios sinais do corpo.

Por exemplo, quando está apertada para fazer xixi. Eu preciso perceber, insistir, levá-la ao banheiro e ajudá-la a entender o que está acontecendo.

Isso exige muita paciência, observação e compreensão.

Porque ela também sofre.

Sofre por não conseguir entender completamente o próprio corpo e tudo o que acontece ao seu redor.

Meu Novo Papel Como Mãe

Com Igor, meu primeiro filho, a experiência foi muito diferente.

Os cuidados da infância existiram, claro, mas o desenvolvimento da autonomia aconteceu de forma natural. Sempre foi uma criança muito inteligente, curiosa e autodidata.

Com Sophia, o caminho é outro.

Por causa do diagnóstico de autismo nível 2 de suporte, os cuidados são muito mais intensos.

Ela ainda precisa de ajuda para atividades simples do dia a dia e exige supervisão constante. Não tem noção de muitos perigos, apresenta dificuldades para compreender sentimentos e sensações, e isso pode gerar frustrações que acabam desencadeando crises importantes.

Além disso, ela é extremamente apegada a mim.

Não gosta de ficar em outros lugares.

Não costuma aceitar ir à casa de parentes.

Não sai sem a minha presença.

Tem pouco interesse em interagir com outras crianças e muitas vezes parece se sentir desconfortável com barulhos, movimentação e até com o toque físico.

Na prática, sou a principal referência dela para quase tudo.

E para assumir esse papel, precisei abrir mão de muita coisa.

Precisei deixar para trás minha profissão, minha carreira, parte dos meus projetos e toda uma trajetória construída ao longo dos anos.

Foi necessário me reinventar.

Porque a vida que eu conhecia já não existia mais.

Mas, olhando para trás, percebo que essa mudança também trouxe algo valioso.

Durante muitos anos eu sentia culpa por passar tanto tempo fora de casa. Sempre tive a sensação de que estava dividida entre o trabalho e a família.

Hoje consigo estar mais presente.

Consigo acompanhar de perto o crescimento da minha filha.

Consigo participar das pequenas conquistas que antes eu perderia.

Claro que não foi uma mudança fácil.

Mas também não foi totalmente ruim.

Na verdade, para mim, trouxe aprendizados que talvez eu nunca tivesse vivido de outra forma.

Aprender coisas novas.

Desenvolver novas habilidades.

Sair da zona de conforto.

Amadurecer.

Tudo isso faz parte da jornada.

E eu ainda estou apenas no começo dela.

Tenho muito o que aprender.

Sophia ainda precisa muito da família para ajudá-la a desenvolver sua autonomia e construir seu caminho.

E nós estaremos aqui.

Com amor.

Com paciência.

Com persistência.

E não, eu nunca deixei de trabalhar.

Porque contas continuam chegando e nada cai do céu.

O que aconteceu foi que precisei desenvolver novas habilidades e encontrar outras formas de gerar renda.

Hoje trabalho de casa.

De um jeito diferente.

Em uma rotina diferente.

Em uma vida diferente.

E está tudo bem.

Porque nem toda mudança representa uma perda.

Algumas mudanças chegam para nos transformar.

E Sophia transformou a minha vida de maneiras que eu jamais poderia imaginar.

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