Ser Mãe Atípica é Estar Fadada à Pobreza?

Recentemente, ouvi uma mãe dizer, durante uma audiência pública, uma frase que ficou ecoando na minha cabeça: “Ser mãe atípica é estar fadada à pobreza.” E desde então venho pensando muito nisso. Porque, infelizmente, essa fala carrega uma verdade dura que quase ninguém tem coragem de dizer em voz alta.

5/23/20262 min read

black blue and yellow textile
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Nós, mães atípicas, até tentamos trabalhar.

Tentamos vender alguma coisa pela internet.
Fazer prestação de serviço.
Empreender de casa.
Aproveitar o horário em que a criança está na escola para produzir alguma renda.

Mas existe um detalhe que muita gente não entende:

Nós nunca estamos realmente livres.

Mesmo quando a criança está na escola, nossa mente continua em estado de alerta.

A preocupação é constante.

Será que ela está bem?
Será que chorou?
Será que entrou em crise?
Será que se machucou?
Será que a escola vai ligar pedindo para eu buscar?

E muitas vezes liga.

Porque a realidade é que muitas escolas ainda não estão preparadas para acolher crianças autistas da maneira que deveriam.

Então vivemos em alerta o tempo inteiro.

E enquanto a criança está na escola, existe outra realidade esperando pela mãe:

A casa bagunçada.
Roupa para lavar.
Comida para fazer.
Mercado para organizar.
Contas acumulando.

Porque cuidar de uma criança autista exige vigilância constante.

Muitas dessas crianças não conseguem ficar sozinhas nem por alguns minutos sem risco de se machucar, mexer em algo perigoso ou entrar em sofrimento emocional.

Isso significa que a mãe praticamente vive em dedicação integral.

E diante dessa realidade, comecei a me perguntar:

Quantas mães atípicas realmente conseguem viver bem financeiramente?

Porque, sendo muito sincera, acredito que seja uma porcentagem muito pequena.

Normalmente, conseguem respirar financeiramente aquelas que possuem:

  • uma rede de apoio forte

  • alguém para revezar os cuidados

  • um parceiro que consiga sustentar sozinho a casa

  • condições financeiras mais estáveis desde antes do diagnóstico

Mas essa não é a realidade da maioria.

A maioria vive cansada.
Sobrecarregada.
Ansiosa.
Tentando sobreviver enquanto cuida de tudo.

E isso gera uma dor muito silenciosa.

Porque ser cuidadora já é extremamente pesado emocionalmente.

Mas além de cuidar, ainda precisamos sobreviver financeiramente em um sistema que praticamente abandona essas mães.

A ajuda do Estado é mínima.

E muitas vezes humilhante.

O básico, que deveria existir, não existe:

  • escolas realmente preparadas

  • terapias acessíveis pelo SUS

  • neuropediatras suficientes

  • acompanhamento adequado para crianças que usam medicações controladas

  • apoio psicológico para as mães cuidadoras

Sem falar no BPC/LOAS, que muitas famílias enfrentam enormes dificuldades para conseguir, mesmo quando claramente precisam.

Muitas mães abandonam suas carreiras porque não conseguem conciliar.

E depois percebem que também foram abandonadas pela sociedade.

Essa é uma parte da maternidade atípica que quase ninguém mostra nas redes sociais.

A exaustão financeira.

O medo constante do futuro.

A sensação de estar tentando manter tudo de pé enquanto vai desmoronando por dentro.

Então, infelizmente, talvez aquela mãe estivesse certa.

Muitas mães atípicas realmente estão sendo empurradas para a pobreza.

Não por falta de capacidade.

Não por preguiça.

Mas porque cuidar em tempo integral tem um custo emocional, físico e financeiro que a sociedade ainda insiste em ignorar.