Não é sobre controlar o autismo. É sobre não se perder tentando

As coisas não são conquistadas no grito, na pressão, na obrigação ou no desespero. Para alcançar um resultado verdadeiro, é preciso paciência e constância. O processo precisa ser suportado… mas também apreciado e vivido.

Iara de Oliveira

5/8/20264 min read

Não sei se isso vai fazer sentido para outras pessoas, mas começou a fazer muito sentido para mim.

Achei muito interessante estudar sobre manifestação, lei da atração e filosofia. São assuntos que estudo há muitos anos, mas que nunca consegui realmente colocar em prática na minha vida.

Percebi algo muito profundo:

Quanto mais ansiamos por um resultado, mais ele parece escapar.

As coisas não são conquistadas no grito, na pressão, na obrigação ou no desespero.

Para alcançar um resultado verdadeiro, é preciso paciência e constância.

O processo precisa ser suportado… mas também apreciado e vivido.

Comecei a entender que precisamos parar de sofrer tanto por aquilo que é externo, por aquilo que não podemos controlar.

Marco Aurélio escrevia em seus diários que o homem livre é aquele que deixa de brigar com o que não pode mudar.

Os budistas também diziam que toda dor nasce de um único lugar: o apego.

E estudando tudo isso, cheguei a uma conclusão muito forte dentro de mim:

Existe um estado interno em que parece que a vida inteira está conspirando contra nós. Mas muitas vezes o sofrimento não está apenas no que acontece… e sim na forma como reagimos ao que acontece.

Seja algo bom ou ruim.

O que é desapego?

Desapego não significa frieza.
Não significa distância.
E muito menos desistência.

Desapego é a arte de desejar sem se agarrar.
De agir sem se perder.
De amar sem controlar.

E acho que foi exatamente isso que comecei a aprender sendo mãe atípica.

A necessidade de provar o tempo todo

Sinto como se eu precisasse me esforçar ao máximo para provar que a Sophia consegue.

Provar que sou capaz de suprir:

  • a falta de terapeutas,

  • a falta de preparo da escola,

  • a falta de médicos especialistas,

  • a falta de apoio verdadeiro.

Como se eu precisasse compensar tudo sozinha.

E percebi como nós, mães, somos pressionadas a controlar nossos filhos.

Mas como controlar outro ser humano?

Tem coisas que dependem de nós.
E tem coisas que simplesmente não dependem.

E eu estou começando a diferenciar uma da outra.

Principalmente pela minha saúde mental, que já estava perto de se perder.

O que eu não consigo controlar

Eu não consigo controlar:

  • o que minha filha pensa,

  • o que ela sente,

  • a reação das pessoas,

  • o julgamento dos outros,

  • o apoio que recebemos da sociedade,

  • nem o preparo dos governantes para lidar com nossas crianças.

E percebi que estava gastando toda a minha energia tentando mover peças que não estavam nas minhas mãos.

E quando chegava a hora de mover as peças que realmente dependiam de mim… eu já estava esgotada.

Devolver cada coisa ao seu lugar

Então, decidi praticar o desapego.

Devolver cada coisa ao seu devido lugar.

O que é do mundo, ao mundo.
O que é do outro, ao outro.
O que é do tempo, ao tempo.

E o que é meu… apenas meu.

Mas afinal, o que realmente é meu?

Minha forma de pensar.

De sentir.

De agir.

De me comunicar.

De interpretar a vida ao meu redor.

De cuidar da minha filha simplesmente como mãe, guiada pela minha intuição.

Percebi que estava desperdiçando uma energia preciosa tentando controlar o que não me pertencia. Tentando provar que era uma mãe em dobro. Justificando minhas escolhas como se eu devesse explicações ao mundo.

Enquanto isso, o meu mundo interno se deteriorava em silêncio.

O Taoismo e a água

O Taoismo descreve isso de uma forma maravilhosa.

Diz que o sábio é comparado à água.

Porque a água não briga com a pedra.
Ela contorna.

A água não tenta empurrar a montanha.
Ela encontra um caminho.

Mesmo sendo suave e flexível, é a água que, com o tempo, esculpe os vales e chega onde precisa chegar.

E talvez seja assim que eu precise viver minha maternidade.

Com menos força.
E mais fluidez.

Como estou aplicando isso com minha filha autista

Estou percebendo que não consigo controlar quase nada.

E estava sendo derrotada por dentro por causa disso.

Então comecei a fazer um exercício muito honesto comigo mesma.

Eu paro um momento e olho para:

  • minha semana,

  • meus pensamentos,

  • meus sentimentos,

  • minhas preocupações.

E me pergunto:

Quantas dessas coisas estão realmente dentro do meu controle?

Quantas estou carregando apenas por teimosia?
Quantas eu poderia simplesmente devolver para o universo e soltar?

Porque enquanto eu insistir em controlar o que não me pertence, vou continuar vivendo em tensão e ansiedade.

Encontrando um equilíbrio possível

Não é fácil.

Exige maturidade.

Mas sinto que preciso liberar espaço dentro de mim:

  • para a leveza,

  • para a tranquilidade,

  • para o equilíbrio,

  • para meu lado criativo,

  • amoroso,

  • paciente.

A vida precisa ser conduzida de dentro para fora.

Sem tanto esforço.

Isso é o natural.

Porque apego cria sofrimento.
E desapego cria fluxo.

Sobre aceitar minha filha como ela é

Passei muito tempo me perguntando:

Por que preciso ocupar todo o tempo da Sophia com terapias, atividades e escola, sendo que muitas vezes ela não gosta?

Claro que existem coisas que precisamos fazer mesmo sem vontade.

Ela precisa aprender.
Precisa desenvolver autonomia.
Precisa se tornar uma adulta funcional.

Isso é responsabilidade minha como mãe.

Mas será que isso precisa acontecer através de uma infância completamente pesada, cansativa e problemática?

Hoje eu estou buscando um meio-termo.

E decidi seguir mais a minha intuição e os meus instintos.

Não será alguém de fora que vai definir sozinho o que é melhor para nossas vidas.

Vou seguir cuidando da Sophia com responsabilidade, amor e informação.

Mas também vou buscar uma vida mais leve, consciente e em paz.

E acredito profundamente que, quando nós mudamos por dentro, tudo ao nosso redor começa, aos poucos, a encontrar um novo equilíbrio também.