Criança autista e celular: vilão ou aliado na rotina?
Aqui em casa, o celular é ao mesmo tempo um vilão e um aliado na rotina da minha filha autista. Minha filha tem 6 anos e pede o celular desde a hora que acorda até a hora de dormir. E eu vivo o conflito diário entre dar o celular para conseguir trabalhar e tirar para conseguir ser mãe presente.
Iara de Oliveira
5/4/20262 min read


“Aqui em casa, o celular é ao mesmo tempo um vilão e um aliado na rotina da minha filha autista…”
Minha filha tem 6 anos e pede o celular do momento em que acorda até a hora de dormir.
Quando eu dou, ela fica calma. O celular funciona como uma babá. Eu sei que, enquanto está na tela, ela não sobe nos móveis, não tenta escalar a janela, não pula de lugares altos, não coloca objetos na boca. Eu consigo trabalhar. Consigo fazer comida. Consigo cuidar da casa.
Quando eu tiro, vêm as crises. Choro, birra, estresse.
E a culpa vem junto.
Culpa por dar.
Culpa por tirar e vê-la chorando.
Eu cedo principalmente quando preciso trabalhar — porque trabalho de casa — e quando preciso dar conta dos afazeres. Sou eu sozinha para tudo.
O que eu já percebi?
Ela só “esquece” o celular quando minha atenção está totalmente voltada para ela.
Quando brincamos de esconde-esconde, pega-pega, amarelinha.
Quando vamos ao parque.
Quando entramos nas historinhas dos desenhos que ela gosta, imitando personagens e falas.
O que piora?
Quando estou ocupada, trabalhando, cozinhando ou limpando a casa.
Então eu tento equilibrar como dá.
Deixo um período no celular para conseguir manter a dignidade da casa e do trabalho. E crio momentos intencionais para tirar das telas e estar com ela de verdade.
Muitas vezes coloco ela para me ajudar nas tarefas, por um curto período ela colabora e aprende. ABA também se aplica nas tarefas comuns do dia a dia, em casa mesmo.
E, no meio disso tudo, fica uma pergunta martelando:
Como uma pessoa dá conta de trabalhar, cuidar da casa, da comida e de uma criança autista sozinha?
A resposta é dura, mas libertadora:
Não dá.
É impossível.
Então a gente aprende a organizar por prioridades.
A casa vai ficar bagunçada.
A comida, às vezes, vai ser requentada.
Parte do trabalho vai ficar para o dia seguinte.
E a criança, sim, vai ficar um tempo no celular.
Porque não somos “super mães”.
Somos mães reais, fazendo o possível para manter tudo de pé — inclusive a nossa própria sanidade.

