A Ansiedade Silenciosa das Mães Atípicas
5/27/20263 min read
Eu sou mãe da Sophia, uma menina de 6 anos com TEA nível 2 de suporte.
Sophia é inteligente, carinhosa, divertida e extremamente apegada a mim. Ela precisa da minha presença praticamente o tempo inteiro. E talvez seja justamente aí que nasce uma ansiedade que poucas pessoas conseguem compreender.
Porque quando uma criança exige cuidados constantes, a vida da mãe muda completamente.
O tempo deixa de pertencer a ela.
Tudo precisa ser pensado em função da criança:
horários
crises
alimentação
sono
escola
segurança
rotina
regulação emocional
Até as tarefas mais simples se tornam difíceis.
Tomar um banho tranquila.
Sentar para tomar um café.
Dormir sem preocupação.
Resolver algo na rua.
Trabalhar em paz.
Sair por alguns minutos sem estar em alerta.
A ansiedade passa a morar dentro da rotina.
No meu caso, por exemplo, arrumar a Sophia para ir à escola já me causa ansiedade física.
Ela chora muito quase todos os dias na entrada da escola. Tem crises longas, porque não gosta de ambientes cheios, do barulho das outras crianças e principalmente da separação de mim.
E eu preciso deixá-la ali mesmo assim.
Muitas vezes volto para casa com dor de cabeça. Outras vezes sinto vontade de vomitar de tanta ansiedade.
Porque uma parte de mim sabe que preciso incentivar a adaptação dela ao mundo.
Mas a outra parte sente a dor dela junto.
Outro exemplo simples, mas que afeta profundamente nossa vida, é sair de casa.
Mesmo preparando antes.
Mesmo avisando.
Mesmo tentando tornar tudo previsível.
Sophia não entra em ambientes desconhecidos.
Eu não consigo simplesmente visitar uma amiga, ir na casa dos meus irmãos ou até passar um tempo na casa da minha própria mãe sem existir tensão.
Muitas vezes ela entra em crise e se recusa completamente a entrar.
E então aquela ansiedade começa ainda antes de sair de casa.
O coração acelera.
A mente fica em alerta.
O corpo tensiona.
E muitas vezes eu volto para casa sem conseguir fazer nada do que planejei.
Esses são apenas alguns exemplos da minha realidade.
Mas cada mãe atípica vive suas próprias dificuldades silenciosas.
Cada criança tem suas sensibilidades.
Suas limitações.
Suas crises.
Suas necessidades emocionais.
E enquanto tentamos cuidar de tudo, existe uma realidade muito dura:
Essas mães quase nunca recebem cuidado também.
Muitas não têm rede de apoio.
Não têm terapia.
Não têm descanso.
Não têm alguém que simplesmente olhe para elas com humanidade.
Às vezes a ajuda nem precisaria ser algo grandioso.
Às vezes seria apenas alguém dizer:
“Eu não consigo cuidar do seu filho hoje, mas posso fazer um almoço para você.”
“Posso ir ao mercado.”
“Posso te ajudar com a casa.”
“Posso sentar um pouco ao seu lado.”
Porque o que destrói emocionalmente muitas mães não é apenas o autismo.
É a solidão da sobrecarga.
Estudos já demonstraram que mães de crianças autistas apresentam níveis significativamente elevados de estresse, ansiedade e exaustão emocional. Uma revisão publicada na Revista Psicopedagogia mostrou alta prevalência de sintomas psicológicos alarmantes em mães de crianças com TEA.
Alguns especialistas inclusive comparam o estado constante de hipervigilância dessas mães ao estado de alerta vivido em situações traumáticas prolongadas, porque o corpo permanece o tempo inteiro preparado para crises, interrupções e emergências emocionais.
E talvez seja exatamente isso que muitas pessoas não entendem:
A mãe atípica raramente relaxa de verdade.
Ela apenas aprende a continuar funcionando mesmo cansada.
Mesmo ansiosa.
Mesmo emocionalmente sobrecarregada.
E ainda assim… segue amando profundamente seus filhos todos os dias.

